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Minha alma por um cargo em confiança

05/07/2011

puxa-sacoGrande parte das organizações públicas possui em sua estrutura organizacional os denominados “cargos em confiança”. As pessoas que ocupam tais cargos são indicadas por aqueles que estão no poder dessa organização, a qual pode ser uma prefeitura, um governo do estado ou do país, uma universidade pública, ou outra qualquer das centenas de organizações públicas que existem.

Esses cargos são caracterizados pela “relação de confiança” dos seus ocupantes com aqueles que exercem o poder na organização. Tal relação pressupõe certo alinhamento do ocupante do cargo em confiança para com as formas de gestão, maneiras de agir e toda a ideologia daqueles que estão, mesmo que temporariamente, no poder. Este aspecto temporário ocorre porque há processos políticos nessas organizações, eleições internas ou mesmo eleições de esferas de poder maiores como as prefeituras, os estados ou o país, e, como existem muitas organizações públicas vinculadas hierarquicamente a tais esferas de poder, há também os devidos cargos em confiança destas organizações, os quais são preenchidos por pessoas de confiança do grupo político vencedor das eleições.

No contexto político das organizações públicas é importante reconhecer que o processo político pressupõe, naturalmente, a formação de grupos políticos diferentes, com pensamentos, atitudes, ideologias e comportamentos diferentes. Portanto, seria natural e saudável a existência e, sobretudo, a atuação livre e efetiva de grupos políticos diferentes em organizações públicas, alguns exercendo o poder e outros fiscalizando, criticando, preferencialmente de forma construtiva, e promovendo debates sobre as questões importantes dessas organizações.

No entanto, não é isso que acontece em muitas organizações públicas (ou em todas mesmo!). Na realidade, percebe-se que aqueles que exercem o poder fazem de tudo, às vezes até atos ilícitos, para defender e superproteger o seu grupo político e sua claque. Assim, quaisquer manifestações e comportamentos que não vão ao encontro de seus interesses são cruelmente atacados: a crítica, mesmo que construtiva, não é permitida; o questionamento do status quo não é tolerado; a discussão de formas melhores ou diferentes de se fazer as coisas não é bem vinda; a reflexão sobre as injustiças e irregularidades cometidas por quem está no poder é condenada.

Enfim, cria-se um ambiente psicológico que estimula o comodismo, o servilismo, o comportamento medíocre e o silêncio da conformidade forçada por meio do medo, da perseguição, do boicote, da desconstrução da imagem dos questionadores, da exclusão de benefícios aos diferentes, da promoção do isolamento social dos “do contra”. Ou seja, as pessoas não podem ser elas mesmas, não podem se expressar, não podem falar, não têm o direito de pensar criticamente e expor as mazelas e a podridão do ambiente em que atuam, porque, afinal, todo pensamento e comportamento crítico será rigorosamente punido! Sim! Viva a alienação! Viva a conformação! Viva a mediocridade! Viva a subserviência! Viva o exército de vaquinhas de presépio! Porque que mudar, não é mesmo? Afinal, se o sistema é assim, é porque está bom para grande parte das pessoas, não é mesmo? Será?

Mas o que isso tudo tem a ver com os cargos em confiança? Muito simples, o sistema tal como é ou está, não sobrevive por acaso. É porque existem aquelas pessoas que o defendem, aquelas pessoas que o mantém, aquelas pessoas que o reforçam, aquelas pessoas que são comprometidas – explícita ou implicitamente – com essa forma de gestão, mesmo que de forma inconsciente. Parte destas pessoas exercem os “tão desejados” cargos em confiança. Elas formam uma espécie de exército da manutenção e defesa da ideologia e formas de agir de quem está no poder. Agem como fiscais, olheiros, espiões, detratores, delatores e executores de mecanismos de identificação e punição dos que ousam pensar e questionar. São, na verdade, “soldadinhos” servis do poder, bajuladores, pobres subservientes. Mas não fazem isso por acaso. Há uma recompensa: a remuneração do cargo em confiança!

Ah, então está explicado: um “dinheirinho” a mais no final do mês justifica tudo! Sim, tem pessoas que vendem até a alma por um cargo em confiança. Abrem mão de seus valores, de seus princípios éticos, de sua possibilidade de pensar e ser um agente de mudanças, de questionar as injustiças, de promover um ambiente de trabalho ou uma sociedade melhor, abrem mão de promover o bem coletivo. Fecham seus olhos para a realidade, muitas vezes cientes do que estão fazendo. São coniventes com os comportamentos questionáveis dos poderosos. Tudo em nome do dinheiro, pouco ou bastante. Viva o querido, idolatrado e amado deus dinheiro!

Talvez um dia, talvez quando envelhecerem, as pessoas que foram fiéis amantes da subserviência venham refletir sobre suas atuações no mundo e possam reconhecer que poderiam ter feito as coisas de modo diferente, mas já será tarde demais, pois perderam o momento e a oportunidade de fazer diferente.

Entretanto, façamos justiça, pois não se pode generalizar: é certo e necessário afirmar que não são todos os que exercem cargos em confiança que agem desta forma medíocre e subserviente, transformando-se apenas numa claque dos donos do poder. Há pessoas competentes, éticas, corretas que exercem os cargos em confiança com atitudes e comportamentos admiráveis. E estes, merecem o nosso verdadeiro respeito e consideração.

De fato, a esperança não pode ser perdida. É possível construirmos um ambiente de trabalho e uma sociedade melhor: menos individualista e mais coletiva, menos punitiva e mais aberta ao diálogo, menos estável e acomodada e mais propensa às mudanças, menos segregadora e mais inclusiva, menos corrupta, menos desonesta, menos injusta, menos repressiva, menos manipuladora, menos antiética.

Sim, há possibilidades reais de mudança! Só depende de cada um de nós. Não deixemos que a repressão seja a regra. Não deixemos abafarem nossas idéias, não deixemos calarem a nossa voz e os nossos questionamentos, não deixemos de lutar contra as injustiças, não deixemos nos alienar, não coloquemos nossa alma à venda, não deixemos de pensar, refletir e agir por um mundo melhor. 

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