Skip to content

“O que é a democracia”, Alain Touraine

06/09/2011

(Brevíssimo e limitadíssimo resumo do livro. Não o use como referência. Leia o livro!)

A questão atual que permeia debates e discursos refere-se ao contexto da democracia. Uma circunstância em que o Nazismo, como um regime totalitário, foi aniquilado; a guerra fria foi vencida; os governos totalitários da América Latina e os regimes autoritários do mundo se enfraqueceram. Porém, na ótica de Touraine (1996) o que se vê é uma derrocada progressiva da tão defendida democracia. Quais são os pressupostos desta ação democrática? como é vista a democracia hoje? em que consiste o pensamento do autor para uma sociedade democrática? Estas são questões que o autor procura responder.

No cenário presente, o que se vê é um enfraquecimento da democracia, o que se tornou claro à medida que os eleitores deixaram de se sentirem representados e passaram a representar uma classe cujo único objetivo parece ser o seu próprio poder. Este enfraquecimento se vê também quando os indivíduos se sentem mais cosmopolitas que nacionais, mais consumidores que cidadãos e, como reflexo, quando não se sentem elementos de uma coletividade e, da mesma forma, não se sentem capazes de interferir nas decisões que influenciam nesta, através de participação nas razões econômicas, políticas, étnicas ou culturais.

Tratando-se da sociedade moderna, como ressalta Touraine, temos, por um lado, o poder industrial que impõe a normalização, a organização científica do trabalho e a submissão do operário a cadências de trabalho e, por outro, a sociedade de consumo, reflexo desta ordem, que responde com níveis de consumo cada vez maiores.

No entanto, o poder político requer a manifestação de filiação e lealdade para se sustentar, o que, entretanto, representa uma contradição, haja vista que, a democracia engaja-se com a liberdade num sentido amplo através da luta dos sujeitos impregnados de suas culturas contra a lógica dominadora dos sistemas que exerce influência sobre suas personalidades. Touraine destaca, portanto, que a democracia compromete-se com a produção da diversidade em uma cultura de massa e, neste sentido, a filiação e a lealdade devem ser vistas com cuidado, podendo expressar-se de maneira extremada em que os indivíduos componentes de uma coletividade se diluiriam numa identidade coletiva que não se permite pensar em formas democráticas.

O autor alerta, deste modo, para a atenção com o respeito às diferenças, pois se poderia incorrer no risco de se estar formando comunidades confinadas na obsessão à sua identidade e homogeneidade. A cultura democrática, como defendida pelo autor, combate a idéia tanto de unidade quanto de universalismo e se define como um esforço de combinação entre unidade e diversidade, liberdade e integração, em que não há oposição retórica entre o poder da maioria aos direitos das minorias.

Dessa forma, o enfraquecimento da idéia democrática que se percebe em tempos atuais é destacado pelo autor como uma degradação, em que esta idéia passa a representar uma noção empobrecida pela indispensabilidade de se interrogar sobre o conteúdo social e cultural da democracia. Touraine faz um apelo a uma concepção fundamentada na ação democrática pela libertação de indivíduos e grupos, que submetidos a uma lógica de poder não passam de uma fonte de recursos. Também destaca que esta proposta se faz essencial como um meio de fazer com que o mascaramento de absolutismos e da intolerância, como formas democráticas de alocar as pessoas, sobressaia.

A espinha dorsal da democracia é a idéia de soberania popular em que a ordem política é produzida pela ação humana imbuída da razão contra o domínio da comunidade e a sedução do mercado. A ação democrática, conforme prevalece nas idéias de Touraine, baseia-se na associação cada vez mais estreita da democracia negativa com a democracia positiva, ou seja, do conjunto de garantias institucionais para proteger a população do poder arbitrário com o aumento do controle pelas pessoas sobre sua própria existência, respectivamente. Desta forma, o Estado apresenta-se como um meio somente a serviço do objetivo principal de aumento da capacidade de intervenção de cada um sobre sua própria vida.

A ação democrática baseada na libertação do indivíduo e dos grupos assenta-se na pressuposição de uma emancipação em termos da possibilidade de conscientização acerca dos seus atos, em que os atores sociais distanciam-se da condição imersa. Para este fim, ressalta-se a importância da constituição de atores capazes de conduzir uma ação econômica racional e de administrar as relações de poder, pois, seriam os únicos com possibilidade de resistir ao domínio do Estado autoritário, modernizador e nacionalista porque constituem uma sociedade civil capaz de negociar com o Estado, o que denota uma autonomia real à sociedade política, locus da democracia.

Assim, a tendência de massificação e o enfraquecimento do processo democrático que envolve as sociedades somente poderá ser combatida através da educação que preza pela criatividade, a liberdade do sujeito, e o reconhecimento do outro. Este fato demonstra-se instigante diante da formação de comunidades radicais, onde uma hegemonia impositiva promove um integrismo fechado e, de forma semelhante, diante do movimento da globalização que fragmenta as identidades e tende para que estas se fechem sobre si mesmas. Portanto, além de lutar contra os antigos regimes autoritários, a ampliação da atuação direciona-se para impedir a desintegração do mundo, recompondo-o de maneira a que se prevaleçam suas relações e sua unidade.

É evidente o perigo de forças ameaçadoras que uma sociedade de massa e consumo representa para o processo democrático, limitando a capacidade de reflexão e escolha e ignorando as relações sociais. Evidencia-se, então, o papel fundamental do sujeito como interposição de forças de mediação com a democracia, compreendendo a união entre identidade e técnica que o torna capaz de transformar seu meio, contribuindo para que as instituições democráticas ocupem, de maneira sólida, seu papel na sociedade.

Assim, o indivíduo constitui-se como sujeito a partir do momento em que adquire a consciência de seus atos, libertando-se das regras sociais do Estado e construindo um projeto de vida que se defina por sua luta pela libertação, resistência à dominação, amor a si próprio e pelo reconhecimento dos outros como sujeitos, sem reduzir-se a uma razão individual.

A democracia torna-se o campo institucional capaz de proteger o esforço de indivíduos para tornarem-se sujeitos aptos a enfrentar a dissociação entre os mundos da ação e do ser, capaz ainda de completar diferenças através de uma solidariedade que seja integradora. Tais reflexões, assentadas na consideração do outro, é o que Touraine denomina de cultura democrática. Sem esta, não se pode falar de democracia.

Referência

TOURAINE, Alain. O que é a democracia. Rio de Janeiro: Vozes, 1996.

———

Neste momento, podemos nos questionar:

– Em que medida nós somos sujeitos de nossa própria existência?

– Em que medida nós transformamos o nosso meio?

– Em que medida nós consideramos o outro?

* Atenção: Este texto é um resumo do livro de Alan Touraine. Fique a vontade para sugerir melhorias no seu conteúdo, caso você conheça o livro objeto deste texto.

PDF: http://dl.dropbox.com/u/23482296/ArtigosBlog/O_que_e_a_democracia_Alan_Touraine.pdf

Anúncios
4 Comentários leave one →
  1. Pedro Francisco Theodoro Silva permalink
    09/09/2011 17:01

    Prof. Geverson

    Achei muito produtivo e interessante esse site, parabéns!
    Com certeza agrega muito a leitura dos materiais disponíveis no mesmo.

    Pedro Francisco

  2. 11/09/2011 19:52

    Valeu! Obrigado!

  3. Ricardo Mesquita permalink
    22/11/2011 17:02

    Para resumir mais ainda conclui-se que se plantarmos mal, comeremos mal. Então um povo com pouca cultura tem em seu poder um democracia pobre consequentemente políticos pobres ha!!!! então está aí a razão de tanta pobreza cultural o investimento na educação é muito pequeno em nosso país eleitores desculturados gera democracia desculturada. Simples né!!!!!!!!!!!

    • 12/12/2011 19:44

      Ricardo, concordo com você em relação à educação. A educação é a melhor forma de transformar as pessoas em cidadãos, sujeitos de sua própria existência, cientes de seus direitos e obrigações, e, sobretudo, seres humanos participativos e críticos do mundo em que estão inseridos. Isso é um desafio enorme que precisa ser vencido. Nunca é demais investir na formação de cidadãos inteligentes! Obrigado pela sua participação!

Digite seu comentario

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: