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Limites éticos do envolvimento de religiões com a política

29/11/2011

 Publicado no jornal Diário de Guarapuava, 07-08/07/12, ano XIII, ed. 3387, p. A19.

O processo de eleição de um candidato é, na maioria dos casos, difícil, pesado, trabalhoso, e complexo. Este fato faz com que muitas organizações religiosas, representadas especialmente por igrejas, sejam alvos de candidatos que estão à procura de “ovelhinhas obedientes” para os elegerem. Assim, com a conivência de líderes religiosos – padres, bispos, pastores, monges, etc. -, tentam angariar, aliciar e atrair eleitores entre os fiéis da igreja, principalmente aqueles que não possuem senso crítico e capacidade para perceber que estão sendo manipulados e usados politicamente.

Tais manipulações covardes de fiéis, exercidas por líderes religiosos, em conluio com candidatos e partidos políticos, podem ocorrer de formas explicitamente públicas e diretas, quando os líderes religiosos pedem votos a certos candidatos, sob os mais diversos e planejados argumentos; ou de formas sutis, tênues, espertas, quando há todo um ambiente, um ritual, conversas e discursos que tendem a direcionar o voto dos fiéis para determinados candidatos. Tudo, enfim, é antecipadamente arquitetado com o objetivo de influenciar e controlar o voto de pessoas sobre as quais aquela igreja ou religião possui poder e domínio. Portanto, em ambas as situações, ocorrem o uso e o abuso da influência que líderes religiosos possuem sobre os fiéis para eleger candidatos de suas preferências.

Ora, sabemos que o desenvolvimento da dimensão espiritual, para muitas pessoas, está relacionado ao pertencimento a uma religião. Este pertencimento, este processo de se fazer parte de uma organização religiosa, exige que atitudes, comportamentos e ações dos seguidores ou fiéis estejam, preferencialmente, de acordo com os princípios, normas, regras, doutrinas, “leis” e ensinamentos da religião, os quais são expressos, mantidos e reforçados por seus apreciados líderes. Destaque-se ainda que em recentes pesquisas (Latinobarômetro e IBOPE, ambas de 2011), constatou-se que a igreja é uma das instituições na qual os latino-americanos mais confiam. Com base neste alto índice de confiança, concluímos o forte poder de influência de religiões ou de líderes religiosos sobre seus fiéis, os quais são eleitores também.

Neste contexto, percebe-se um grande dilema ético de organizações religiosas e suas relações com a política: afinal, até que ponto as organizações religiosas (igrejas, por exemplo), por meio de seus líderes (padres, pastores, bispos, monges, ou outros), podem usar o seu poder de influência sobre seus fiéis para beneficiar determinados políticos, fazendo com que seus seguidores votem em certos candidatos e não em outros? Teria uma organização religiosa o direito de exercer este tipo de influência? Até que ponto as igrejas podem interferir em decisões – que deveriam ser pessoais – de seus fiéis? As igrejas ou religiões podem decidir por seus fiéis, tratando-os como se eles fossem realmente “ovelhinhas” desprovidas de inteligência, sendo guiadas para o “melhor pasto”? É correta e ética a criação de espécies de “currais eleitorais” em igrejas?

A democracia em que vivemos nos permite criticar e condenar toda forma de alienação e manipulação política. Logo, não podemos nos furtar destas reflexões, haja vista que o desenvolvimento da dimensão espiritual, amplamente buscado em igrejas, não exime as pessoas de exercitarem suas capacidades críticas e reflexivas para interpretarem o seu mundo, posicionando-se – elas próprias – diante das circunstâncias da vida quotidiana, inclusive sobre as questões políticas.

Enfim, é importante destacar que as considerações aqui expressas têm como objetivo gerar reflexões sobre a influência de organizações religiosas na política e, mais especificamente, sobre como essa influência ocorre ou pode acontecer por meio de seus líderes. Não se afirma que as organizações religiosas não possam atuar na ampla temática da política junto aos seus fiéis, criando condições para que se tornem eleitores mais inteligentes, reflexivos e críticos. O que se sustenta, sim, é a necessidade de se refletir sobre o quanto as organizações religiosas, em vez de contribuírem para se criar uma sociedade mais inteligente, mais crítica, mais reflexiva, melhor e mais justa, podem acabar fazendo exatamente o contrário, ao exercer, por meio de seus líderes, a manipulação política de parte de seus ingênuos fiéis. Isto não pode e não deve acontecer, e precisa ser combatido!

É necessário ser sujeito de seu próprio mundo! Ter religião não pode significar abrir mão da capacidade individual de pensar, de refletir e decidir! Decidir por si próprio, não porque o líder religioso (padre, bispo, pastor ou outro) “mandou”. E que a paz esteja conosco! Amém! ♦

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O texto abaixo é a versão inicial do texto acima, que publiquei neste blog, em 29/11/11. A versão acima foi reescrita adequando-se ao tamanho máximo do texto exigido pelo jornal. Partes foram alteradas, suprimidas e acrescentadas em relação ao texto original, que deixo registrado a seguir:

Todos nós queremos um país melhor, uma sociedade melhor – em todos os aspectos – para vivermos. Isto pode ser alcançado, em grande parte, pela ação política, ou seja, pelo exercício da política por meio de vereadores(as), prefeitos(as), deputados(as), governadores(as), senadores(as) e presidente(a) da república. O processo de eleição de um candidato é, na maioria dos casos, difícil, pesado, trabalhoso. Este fato pode fazer com que diversas organizações, por meio de seus líderes e administradores, exerçam influência sobre as pessoas no sentido de “ajudar” candidatos de suas preferências a se elegerem para cargos públicos. Assim, não é raro vermos em épocas de eleições tais organizações serem alvo de visitas de candidatos e muitos de seus líderes tentarem, de formas explicitamente públicas ou sutis, influenciar o voto de pessoas sobre as quais possuem algum tipo de poder.

Parte deste conjunto de organizações pode ser representado por instituições religiosas. Estas que, seguramente, possuem alguma forma de poder sobre seus seguidores, haja vista que o desenvolvimento da dimensão espiritual, para muitas pessoas, está relacionado ao pertencimento a uma religião. Este pertencimento, este processo de se fazer parte de uma organização religiosa exige que os comportamentos e ações dos seguidores estejam de acordo com as regras, doutrinas, “leis” e ensinamentos do segmento religioso, os quais são expressos, mantidos e reforçados por seus líderes (padres, pastores, bispos, monges, ou outros).

O poder de influência de organizações religiosas é tão grande que em recente pesquisa do Latinobarômetro(1), em 2011, constatou-se que a igreja é a instituição na qual os latino-americanos mais confiam. De acordo com este estudo, no Brasil, para 76% da população, a igreja é a instituição mais confiável, enquanto que em nível regional, ou seja, latino-americano, o mesmo índice é de 64%. Outra pesquisa realizada pelo IBOPE(2) também em 2011, corrobora a forte influência de organizações religiosas sobre a população, ao constatar que no Brasil a igreja possui um Índice de Confiança Social  de 72 pontos (atrás apenas do corpo de bombeiros, com 86 pontos).

De fato, e com base nos números de tais pesquisas, é impossível negar o poder de influência de organizações religiosas sobre a população. E este poder pode ser usado para influenciar o voto de seus seguidores em certos candidatos a cargos públicos. Neste contexto, percebe-se um grande dilema ético das organizações religiosas e suas relações com a política: afinal, até que ponto as organizações religiosas (igrejas, por exemplo), por meio de seus líderes (padres, pastores, bispos, monges, ou outros), podem usar o seu poder de influência sobre seus seguidores para beneficiar determinados candidatos, fazendo com que seus seguidores votem nestes candidatos e não em outros? Teria uma organização religiosa o direito de exercer este tipo pernicioso de influência?

É óbvio que este é um assunto bastante delicado, mas que precisa ser discutido! Vamos a algumas considerações relevantes. Ao fazer parte de organizações religiosas, as pessoas buscam desenvolver a sua dimensão espiritual. Este é o motivo, via de regra, de estarem numa igreja, este é o motivo de aceitarem as suas doutrinas e ensinamentos e participarem da organização religiosa. No entanto, é importante ressaltar que o desenvolvimento da dimensão espiritual não exime as pessoas de exercitarem suas capacidades críticas e reflexivas para interpretarem o seu mundo, posicionando-se diante das circunstâncias da vida quotidiana. Assim, a dimensão espiritual está relacionada justamente à vivência da liberdade e da responsabilidade(3). Isto implica que o desenvolvimento da dimensão espiritual está associado ao caráter único, de cada ser humano, de ter a liberdade de posicionar-se no mundo. Este posicionamento não pode ser coletivizado, sem reflexão e sem o conhecimento do que se faz, e sem a responsabilidade pelas suas decisões.

Ainda que estas considerações sobre a ampla e complexa temática do desenvolvimento da dimensão espiritual sejam muito limitadas, considera-se adequadas para os objetivos deste pequeno texto. O princípio expresso aqui é que o espírito da pessoa, desenvolvido ou não por meio de organizações religiosas, seja realmente livre. Conseqüentemente, as atitudes, decisões, ações e comportamentos das pessoas em relação à política devem ser apenas seus (ainda que consideremos a intersubjetividade) e não de organizações religiosas às quais pertencem.

Convém salientar, no entanto, que não se pode condenar as ações de organizações religiosas que têm como objetivo ensinar e gerar conhecimentos aos seus seguidores sobre como se comportar de forma efetivamente reflexiva e crítica diante da política. Desde que isso seja feito de forma independente de políticos e de partidos, e desde que se utilize de princípios universais de ética e de direitos humanos – coincidentemente religiosos ou não -, tais ações são bem-vindas, por terem a capacidade de reduzir ou eliminar a alienação política de seus fieis, ao promover a atuação reflexiva e crítica das pessoas na sociedade. Assim, pode-se promover o desenvolvimento da capacidade de seus seguidores em diagnosticarem com maior clareza os problemas da sociedade, de entenderem a conjuntura política e de, sobretudo, aprimorarem suas competências e habilidades para analisarem os candidatos e escolherem – por si próprios – os seus candidatos.

Portanto, são as pessoas que devem ter a capacidade de analisar o mundo político em que se encontram e decidirem sobre quais seriam os melhores e mais preparados candidatos. Logo, as organizações religiosas não podem e não devem, sob pretexto nenhum, decidir o voto pelos seus fiéis, os quais são também eleitores.

Mas, claro, não se pode ignorar a capacidade de manipulação que as organizações religiosas podem exercer, por meio de seus líderes, sobre seus fieis. Neste sentido, é inadmissível que igrejas e outras organizações religiosas utilizem o seu poder de influência para que seus seguidores votem a favor de determinados candidatos. Esta manipulação pode ocorrer de maneira sutil ou expressamente pública, por meio de pregações, discursos, entrevistas, reuniões, textos, dentre inúmeras outras formas.

Vale observar que quando isso acontece, a organização religiosa (igreja ou outra) corre o risco de ter a sua credibilidade prejudicada perante seus fieis e toda a sociedade. Primeiro, porque a sociedade tomará conhecimento da suposta manipulação. Segundo, porque ao avalizar ou apoiar um político ou partido, ficará, de certa forma, refém das ações e comportamentos desse político e desse partido. Assim, se este político vier a cometer crimes ou atuar de forma não ética, a igreja também será responsabilizada ou, no mínimo, associada a tais atos porque apoiou e avalizou o político ou o partido.

A democracia em que vivemos nos permite criticar e condenar toda forma de alienação e manipulação política. Assim, condenamos os conhecidos “currais eleitorais” e os “votos de cabrestos”, tradicionalmente associados a lugares do país onde o coronelismo existe. Mais ainda, condenamos o voto alienado, condicionado, pressionado, comprado, e sem reflexão crítica. E se é assim, jamais podemos permitir que existam “currais eleitorais” religiosos ou “votos de cabrestos” religiosos, ou votos alienados, pressionados e sem reflexão, forjados em organizações religiosas. As organizações religiosas não têm o direito – moralmente, eticamente, e legalmente falando – de abusar de seu poder de influência, aproveitando-se da ingenuidade de seus fieis, para “eleger” certos candidatos a cargos públicos.

Outro aspecto relevante neste contexto é a reflexão sobre a ética que todo líder, religioso ou não, deve ter para com seus liderados. A liderança é caracterizada pelo poder de influenciar as pessoas em suas decisões e ações. Então, é necessário refletir seriamente sobre o papel do líder em sua organização religiosa: como e para que será usada a liderança? (i) Para tornar as pessoas melhores e mais inteligentes? Para desenvolver as capacidades reflexivas e críticas de seus liderados e prepará-los para tomar as suas próprias decisões, tornando-os sujeitos de seu próprio mundo? ou, (ii) A liderança será usada de forma covarde, vil e manipuladora, para induzir fieis ingênuos, humildes e sem senso crítico a votarem em certos candidatos? É correto líderes religiosos pensarem e decidirem por seus fieis, impondo, consequentemente, as suas escolhas políticas?

Assim, insistimos que os líderes religiosos precisam refletir sobre seus papeis enquanto líderes que influenciam a vida de seus liderados. Os líderes religiosos tratarão os fieis como “ovelhinhas irracionais”, como se fossem quase animais que devem ser conduzidos com viseiras para o caminho pensado e decidido pelo sábio “pastor”, pelo grande líder? Ou vão considerar os fieis como os verdadeiros seres humanos que são, dotados de inteligência e capacidade de aprendizagem e reflexão sobre as inúmeras questões da vida quotidiana e espiritual, dentre elas, as questões políticas?

Enfim, é importante destacar que as considerações expressas neste texto têm como único objetivo gerar reflexões sobre a influência de organizações religiosas na política e, mais especificamente, sobre como essa influência ocorre ou pode acontecer. Não se defende aqui que as organizações religiosas não possam atuar na ampla esfera da temática política junto aos seus fieis, criando condições para que seus fieis tornem-se eleitores mais reflexivos e críticos. O que se defende, sim, é a necessidade de se refletir sobre o quanto organizações religiosas, em vez de contribuir para criar uma sociedade mais inteligente, mais crítica, mais reflexiva, melhor e mais justa, podem acabar fazendo exatamente o contrário, ao exercer, por meio de seus líderes, a manipulação política de parte de seus ingênuos fieis. Isto não pode, não deve acontecer e precisa ser combatido! Ter religião não pode significar abrir mão da capacidade individual de pensar, de refletir e decidir! Decidir por si próprio, não porque o líder religioso (padre, pastor ou outro) “mandou”. E que a paz esteja conosco! Amém!

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1http://www.domtotal.com/noticias/detalhes.php?notId=386221

2 http://www.ibope.com.br/calandraWeb/servlet/CalandraRedirect?temp=6&proj=PortalIBOPE&pub=T&nome=home_materia&db=caldb&docid=10BCD9362159152B8325791E003F379E

3 Frankl, V. E. Psicoterapia e sentido da vida. São Paulo: Quadrante, 1989.

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4 Comentários leave one →
  1. Marcia permalink
    29/11/2011 17:30

    Infelizmente a religião virou comércio e não há nada mais comercial que política. Se acreditam até em quitar as dívidas por deixar a toalinha no banco, imagine num político que pode ser bom no futuro, por pior que seja atualmente. Deus faz milagres, creio. Mas nem tanto.

    • 06/12/2011 15:59

      Acredito que não devemos generalizar. Muitas organizações religiosas possuem trabalhos exemplares na área social, dentre outras ações elogiáveis. Há, entretanto, algumas que não merecem mesmo sequer ser chamadas de organizações religiosas, haja vista que os interesses de seus líderes e a consequente atuação “religiosa” não é das mais adequadas para o que deveria ser uma organização religiosa de fato.

  2. 27/12/2011 11:36

    E CRIME UM LIDER RELIGIOSO SE CANDIDATAR A POLITICA E SER ELEITO?

    • 27/12/2011 17:34

      Não é crime, inclusive há políticos padres, pastores e outros. O que é necessário analisar é a forma, ou seja, como esses líderes religiosos foram eleitos? Se foram eleitos por meio de manipulação religiosa de seus fiéis ou não.

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