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O preconceito musical

24/01/2012

 Publicado no jornal Diário de Guarapuava, 24-25/11/12, ano XIII, ed. 3484, p. A20.

Viver em sociedade não é fácil. Exige muita tolerância, muito respeito mútuo. Somos todos diferentes em vários aspectos. Tais diferenças tornam a vida em sociedade bastante complexa. Pode-se questionar: como os diferentes viverão juntos, em sociedade? Ou, talvez, a pergunta poderia ser: porque os diferentes não podem viver juntos? Tais questões resumem o desafio da convivência em sociedade.

Viver em sociedade é conviver com pessoas e grupos de pessoas diferentes de nós. Pessoas que são, pensam, agem, e gostam de coisas diferentes. Dentre as coisas diferentes, as quais contribuem para tornar as pessoas diferentes umas das outras, está a música. Há diversos estilos musicais, para diversos tipos de públicos, os quais possuem diversos gostos e preferências.

Até aqui, nada de mais. É óbvio isso. Mas o fato é que muitas pessoas se acham no direito de pensar que o seu estilo de música preferido é o melhor, é o correto, é o tipo de música de “pessoas superiores”. Assim, acham que podem discriminar os demais estilos de música e também as pessoas que gostam de outros tipos de música.

Esta suposta superioridade no bom gosto musical é alicerçada em dois fatores principais. O primeiro é o financeiro ou social. Neste aspecto, os argumentos são de que, pessoas ricas, ou de classes sociais mais altas, possuiriam gostos mais refinados e melhores que os pobres ou pessoas de classes sociais mais baixas. Por isso, suas escolhas musicais seriam as mais corretas. Logo, toda a sociedade deveria segui-los. Eles seriam os donos do bom gosto musical, haja vista que julgam possuir uma “cultura superior”.

O segundo fator, e não menos importante, é o intelectual. Afinal, todos querem ser associados a pessoas ou grupos de pessoas inteligentes. Então, pessoas intelectuais ou supostamente (que se acham) mais inteligentes possuiriam gostos mais refinados e melhores que os não tão inteligentes. Por isso, suas escolhas musicais seriam as mais corretas. Eles possuiriam uma “cultura superior” que os menos desenvolvidos intelectualmente não teriam. Portanto, a sociedade deveria segui-los. Eles seriam os donos do bom gosto musical. Eles pensam saber – com toda a sua sapiência inalcançável – como analisar o que é uma música de qualidade, e até que nível de qualidade a sociedade deveria aceitar, usufruir, e gostar.

Inclusive, muitas vezes, estes dois fatores – social e intelectual – podem estar juntos no processo de “pregação” da boa música na sociedade. Neste caso, a situação seria o auge da superioridade de gostos musicais sobre a maioria do povo pobre e incapaz de apreciar a boa música. Já imaginou? A pessoa pertencer a uma classe social mais alta e ainda ser intelectual? (Cantemos: “Nossa! Nossa! Assim você me mata…”). Teríamos, então, o perfeito guru – abastado e intelectual – do bom gosto musical. Um guru da qualidade musical. Um guru que pode definir o que é música de qualidade e o que não é. Claro que o “povão” pode não aceitar as preferências e recomendações do guru musical abastado e intelectual. Mas, também, o que se pode esperar do “povão”? O “povão” é pobre e quase sempre desprovido de intelectualidade musical, certo?

Muito bem, apesar da visível ironia contida nos parágrafos anteriores, o mundo está cheio de gurus musicais abastados e/ou intelectuais. É por isso que muitos discriminam outros estilos de música e, consequentemente, as pessoas que gostam desses outros tipos de música. Vale ressaltar que gostar de certos estilos de música, e até defendê-los, é perfeitamente normal e todos nós exercemos este direito. O problema surge quando existe a discriminação de outros estilos musicais ou pessoas, por meio da associação de determinados tipos de música a coisas negativas, depreciativas, humilhantes e/ou reprováveis na sociedade. Isto não pode acontecer. Ou seja, a defesa do seu estilo de música ou do seu gosto musical (que é apenas seu!) pode ser realizada de forma respeitosa aos demais tipos de músicas e de pessoas que as curtem.

A realidade é que não podemos decidir o que os outros irão gostar, com o que irão se identificar, o que irão fazer. Enfim, não podemos – e não devemos – querer determinar como as pessoas irão viver. Afinal, não gostaríamos que as outras pessoas fizessem ou tentassem fazer isso conosco. Portanto, deixemos o preconceito de lado. Somos diferentes e há estilos musicais diferentes. Ser diferente não significa ser inferior. E viva a diversidade musical! ♦

imagem_preconceito_musical

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O texto abaixo é a versão inicial do texto acima, que publiquei neste blog, em 24/o1/12. A versão acima foi reescrita adequando-se ao tamanho máximo do texto exigido pelo jornal. Partes foram alteradas, suprimidas e acrescentadas em relação ao texto original, que deixo registrado a seguir:

Viver em sociedade não é fácil. Exige muita tolerância, muito respeito mútuo! Somos todos diferentes em vários aspectos. Tais diferenças tornam a vida em sociedade bastante complexa. Afinal, poderíamos nos perguntar: como os diferentes viverão juntos, em sociedade? Ou a pergunta poderia ser: porque os diferentes não podem viver juntos? Tais questões resumem o desafio da convivência em sociedade! Viver em sociedade é conviver com pessoas e grupos de pessoas diferentes de nós. Pessoas que pensam, agem, e gostam de coisas diferentes! Dentre as coisas diferentes, as quais contribuem para tornar as pessoas diferentes umas das outras, está a música. Assim, há diversos estilos musicais, para diversos tipos de públicos, os quais possuem diversos gostos e preferências.

Até aqui, nada de mais! É muito óbvio tudo isso! Mas o fato é que muitas pessoas se acham no direito de pensar que o seu estilo de música preferido é o “melhor”, é o estilo “correto”, é o tipo de música de “pessoas superiores”, e, assim, acham que podem discriminar os demais estilos de música e as pessoas que gostam de outros tipos de música. Esta suposta superioridade no “bom gosto” musical é baseada em dois fatores principais. O primeiro é o financeiro ou social. Neste aspecto, os argumentos são de que, pessoas ricas, ou de classes sociais mais altas, possuem gostos “mais refinados” e “melhores” que os pobres ou pessoas de classes sociais mais baixas, e, por isso, suas escolhas musicais são as “mais corretas”. Assim, toda a sociedade deveria segui-los. Eles são os donos do “bom gosto” musical!

O segundo fator, e não menos importante, é o intelectual. Afinal, todos querem ser associados a pessoas ou grupos de pessoas inteligentes. Então, pessoas “intelectuais” ou supostamente “mais inteligentes” que os outros possuem gostos “mais refinados” e “melhores” que os não tão inteligentes, e, por isso, suas escolhas musicais são as mais corretas. Eles possuiriam uma “cultura superior” que os “menos desenvolvidos intelectualmente” não teriam. Assim, toda a sociedade deveria segui-los. Eles são os donos do “bom gosto” musical! Eles sabem – com toda a sua sapiência inalcançável – como analisar o que é uma “música de qualidade”, e até que nível de “qualidade” a sociedade deve aceitar, usufruir, e gostar!

Aliás, muitas vezes, estes dois fatores – social e intelectual – podem estar juntos nos argumentos pela “pregação” da “boa música” na sociedade! Esta situação seria o auge da superioridade de gostos musicais sobre a maioria do povo pobre e incapaz de apreciar a boa música! Já imaginou? A pessoa pertencer a uma classe social mais alta e ainda ser intelectual? (“Nossa! Nossa! Assim você me mata…”) Teríamos então o perfeito guru – abastado e intelectual – do bom gosto musical, um guru da qualidade musical, um guru que pode definir o que é música de “qualidade” e o que não é. Claro que o “povão” pode não aceitar as preferências e recomendações do guru musical abastado intelectual, mas, também, o que se pode esperar do “povão”? O “povão” é pobre e quase sempre desprovido de intelectualidade musical, certo?

Bom, apesar da visível ironia contida nos parágrafos anteriores, o mundo está cheio de “gurus musicais abastados e/ou intelectuais”. É por isso que muitos discriminam outros estilos de música e, consequentemente, aqueles que gostam desses outros tipos de música. Vale ressaltar que gostar de certos estilos de música, e até defendê-los, é perfeitamente normal e todos nós exercemos este direito. O problema surge quando existe a discriminação de outros estilos musicais, por meio da associação de determinados tipos de música a coisas negativas, depreciativas, humilhantes e/ou reprováveis na sociedade. Isto não pode acontecer. Ou seja, a defesa do seu estilo de música ou do seu “gosto musical” (que é apenas seu!) pode ser realizada de forma respeitosa aos demais tipos de músicas e de pessoas que as curtem!

Logo, é perfeitamente possível gostar e apreciar certos estilos musicais sem discriminar os demais. É possível aceitar as diferenças de gostos e preferências pessoais, sem agredir, sem ofender ou desqualificar os gostos e preferências dos outros. E mais, letras ou ritmos de músicas consideradas “ruins” ou outros adjetivos negativos, têm em todos os estilos musicais, do Rock ao Axé, do Funk à MPB, da Gaúcha ao Sertanejo, do Forró ao Hip Hop, e assim por diante. Enfim, ninguém é o dono da verdade absoluta! Ninguém é o dono do bom gosto musical! Ninguém pode querer impor as suas preferências musicais aos demais, como se fossem as mais “corretas”! Cada um gosta da música que lhe atrai e não há problema algum nisso!

A liberdade, que tanto valorizamos, é de todos, e ela permite que cada um de nós estabeleça o que é importante para nós, o que é bom para nós, o que gostamos e o que preferimos. Mas essa liberdade também vem acompanhada da responsabilidade de nos colocarmos no lugar dos outros, de tentar entender que as opções e escolhas musicais dos outros são tão importantes para eles quanto são as nossas próprias opções e escolhas. “Se quero respeito ao meu gosto musical, devo respeitar o gosto musical de outros!”. São preferências de cada um: “Dá licença? Posso ser eu?”!

A realidade é que não podemos decidir o que os outros irão gostar, com o que irão se identificar, o que irão fazer, em que irão acreditar, enfim, não podemos (e não devemos) determinar como as pessoas irão viver. Afinal, não gostaríamos que as outras pessoas fizessem ou tentassem fazer isso conosco! Viver em sociedade é conviver com a diversidade! O nível de ecletismo de cada um de nós não é importante, o importante é que desenvolvamos em nossas atitudes, ações e comportamentos, muito respeito e tolerância aos diversos tipos de música e aos diversos grupos de pessoas que gostam e curtem cada estilo musical.

Dessa forma, o respeito mútuo é fundamental. Assim, é importante ter cuidado quando estivermos em lugares públicos, ou com vizinhos, ou em quaisquer ambientes e grupos sociais, pois há limites a serem observados por todos nós em prol da convivência respeitosa e pacífica. As pessoas, dependendo do ambiente onde estiverem, não são obrigadas a “suportar” estilos de músicas que não gostam. Viver em sociedade é respeitar o espaço do outro e o espaço que é público, ou seja, de todos, viver em sociedade é conflitar, mas, sobretudo, negociar constantemente.

E viva a música! Viva todos os tipos de música: a minha, a sua, a do vizinho, a dos amigos, a dos parentes! Viva a música do sul, a do nordeste, a do norte, a do centro-oeste, a do sudeste! Viva os diversos estilos de música, em todos os lugares e países do mundo! Viva a diversidade musical!

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17 Comentários leave one →
  1. Eva permalink
    26/01/2012 22:51

    É isso mesmo todo mundo tem o direito de escutar suas musicas e através dela mostrar a sua realidade seu modo de ver o mundo (” nossa, nossa assim vc me mata” ) é um modo de cada um interpretar . Gostei do modo que vc ve o mundo a sua volta . Também penso assim todos sao livres.

  2. Tatiana permalink
    20/03/2012 18:15

    Gostei muito do que você escreveu. E isso é válido não apenas ao gosto musical, mas também a todos os estilos de artes que escolhemos apreciar na vida. Gostei mesmo!

  3. 20/03/2012 19:10

    Obrigado Tatiana pelo comentário e pela participação! :D

  4. Isabela Rivair permalink
    31/03/2012 10:44

    Muito bom o artigo! Penso eu que, o gosto musical é adquirido também pelo meio social em que vivemos e a cultura que absorvemos da nossa família, amigos, professores, vizinhos… Enfim, o ser humano acaba por ser fruto do meio em que está inserido e o o gosto muscial acaba sendo influenciado por esse meio.
    E viva a diversidade musical!

    • 29/04/2012 23:57

      Olá Isabela,
      Concordo com você! Cada um de nós tem histórias, experiências e vivências únicas, e isso nos torna pessoas diferentes com gostos diferentes, e essa diferença precisa ser respeitada. Obrigado pela visita! Até mais!

  5. Jonathan permalink
    29/04/2012 15:28

    Muito bom o artigo!
    posso utilizá-lo no meu trabalho de pesquisa na faculdade?
    prometo que irei colocar todas as referências =D

  6. Juliana permalink
    13/10/2012 15:56

    Para mim, teoricamente isso tudo é muito simples, mas na prática, não tanto. Semana passada mesmo, eu conheci um garoto e estavamos conversando, e eu estava gostando dele até o momento que ele me disse que adora funk e que é dançarino de axé. Eu tentei não deixar aquilo influenciar o que eu pensava sobre ele, mas infuenciou muito. É muito difícil, pra mim, deixar o preconceito(?) musical ou whatever de lado. Sei que não deveria ser assim, mas não consigo mudar.

    • 06/11/2012 23:33

      Obrigado pela participação Juliana! Na realidade, todos tem a liberdade de gostar ou não de certos estilos musicais. E isso faz com que, obviamente, nos aproximemos e também nos afastemos de certos estilos. O fato de você ter tomado essa decisão não significa, necessariamente, que você tenha preconceito. Pode significar apenas a necessidade natural de você se aproximar de pessoas e mantê-las em seu circulo social, desde que tenham preferências por estilos musicais semelhantes às suas. Não tem nada de errado ou anormal nisso. Esse fato é constatado por pesquisas científicas, haja vista que tendemos a nos aproximar de pessoas mais “parecidas” conosco, em diversos aspectos. E tendemos, de forma análoga, a nos afastar de pessoas “mais diferentes” de nós. O problema pode existir, e significar preconceito, se você tiver uma imagem ruim ou negativa de pessoas que gostam de outros estilos musicais. Ou seja, neste caso, você estaria fazendo um julgamento negativo de uma pessoa por causa das opções, gostos ou estilos musicais dela. Isto, acredito que temos que evitar. Afinal, assim como nós temos as nossas preferências, escolhas e opções, os outros também tem as suas e temos que respeitar suas escolhas. Até mais.

  7. vanda permalink
    04/05/2013 20:02

    Parabéns pelo texto!! De fato esses “gurus musicais abastados e/ou intelectuais são um porre…. afff

  8. 06/05/2013 01:18

    OK. Muito obrigado Vanda.

  9. 15/05/2013 05:38

    Cada um ouve ou compõe dentro do estilo e com a mensagem que bem aprouver-lhe.Sempre haverá os que desgostam e os que gostam, é natural.

  10. senojunior permalink
    15/05/2013 05:41

    Cada um ouve ou compõe dentro do estilo que bem lhe aprouver.Uns podem desgostar e outros gostarem. É natural.

  11. 28/03/2014 11:49

    Excelente artigo, parabéns!

  12. 16/12/2014 16:14

    BOA TARDE GOSTO DE MPB,INTERNACIONAL,FORRO SO O FAGNER QUE TEM CULTURA E INTERNACIONAL,MAIS TAMBEM O GOSPEL E O ROCK,AGORA FUNK E HORRIVEL SUAS LETRAS E DIGO TAMBEM QUE COLOCAM SOM ALTO DE MADRUGADA AQUI DE PORNOGRAFIA E EU AUMENTO TAMBEM POIS A QUALIDADE DE MINHAS MUSICAS SAO BEM SUPERIORES AO FUNK EROTICO PORNOGRAFICO E SEM CULTURA NENHUMA.

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