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A ajuda ou bolsa do governo que recebo é justa, o bolsa família não: uma crítica à hipocrisia de alguns

06/02/2012

É incrível como parte das pessoas defende os seus direitos com unhas e dentes, mas quando se trata dos direitos dos outros, aí a coisa muda, e muito! Aquele que se diz justo e correto num momento, de uma hora para a outra, torna-se um pregador de injustiças, e parece que isso ocorre só porque é o outro, e não ele, o “recebedor” daquele direito. Estamos falando de um assunto polêmico: o bolsa família do governo federal, tão criticado por alguns!

Mas, antes de mais nada, não sejamos ingênuos, não existe apenas o bolsa família na qualidade de “bolsa”, ou ajuda do governo, em nosso país. De forma geral, as “bolsas” oferecidas pelo governo federal e, em alguns casos, por governos estaduais, visam promover a inclusão social por meio do acesso a direitos básicos assegurados pela Constituição aos cidadãos e o estímulo ao desenvolvimento do país, que se faz por meio de diversas áreas.

Uma das mais importantes, sem dúvida, é a área da educação. Assim, o governo federal oferece bolsas de estudos, por exemplo, no ensino médio, no ensino superior, e na pós-graduação em cursos de mestrados e doutorados. O governo federal também oferece cursos de especialização gratuitos por meio de programas de educação à distância disseminados em grande parte das universidades públicas do país. Há ainda os programas de formação de pessoal (para funcionários públicos) de universidades ou outras organizações públicas que são oferecidos de forma gratuita, pois os governos, os quais são mantidos pelos impostos da população (ricos e pobres, favelados ou não), assumem seus custos. E desta forma, os funcionários públicos podem fazer graduação, especialização, mestrado e doutorado pagos pelo governo. De fato, a sociedade paga os custos de formação de muita gente no país!

Destaque-se ainda que quase todos os países, senão todos, oferecem “bolsas”, de diferentes tipos, formatos e objetivos, para os cidadãos de seus países, como forma de promoção do acesso a direitos, da inclusão social e do estímulo ao desenvolvimento!

Mas voltemos à questão do bolsa-família! “O BOLSA FAMÍLIA é um programa de transferência de renda destinado às famílias em situação de pobreza, com renda per capita de até R$ 140 mensais, que associa à transferência do benefício financeiro o acesso aos direitos sociais básicos – saúde, alimentação, educação e assistência social.” (http://bolsafamilia.datasus.gov.br/w3c/bfa.asp). Portanto, parece que fica clara a diferença entre as bolsas. O bolsa família tem como foco as “famílias em situação de pobreza”.

Muito bem. Por trabalhar na academia (ou ambiente universitário), tenho visto parte dos professores e funcionários de universidades, e de outras organizações públicas, criticarem veementemente o programa bolsa família. Os argumentos são os mesmos de sempre: “o bolsa família é dinheiro para vagabundos”, “o bolsa família só serve para comprar votos em época de eleições”, “o bolsa família é esmola”, “enquanto eu trabalho, o governo dá dinheiro para vagabundos”, “essa gente tem que trabalhar, ao invés de ganhar dinheiro do governo”, “tem que ensinar a pescar, e não dar o peixe como o governo faz”, dentre outros argumentos que já se tornaram clichês nas manifestações dos “anti-bolsa família”. Diversos estudantes também reproduzem tais expressões ao criticarem o bolsa família.

Sabemos que muitas dessas pessoas estão expressando suas ideologias, suas preferências políticas, estão representando seus partidos políticos e seus políticos queridos. Portanto, neste caso, é normal (mas não deveria ser) que critiquem tudo o que um determinado grupo político faz quando atua – temporariamente – no poder. Assim, criticam porque acham que tem o dever de criticar. Se o programa é ruim, critica-se, mas se é bom, critica-se mais ainda! Afinal, em política, funciona assim: não se pode elogiar ou reconhecer o que o adversário político faz de bom! Se é bom, encontremos algo de ruim para criticar, pois nada é perfeito! E assim caminha a velha e a atual política!

Mas o mais intrigante nessa história é observar alguns grupos de pessoas que criticam pesadamente o bolsa família. São pessoas que não estão no grupo dessas “famílias em situação de pobreza”, não são miseráveis passando fome, sem moradia ou com moradia precária, sem segurança, com a saúde debilitada, e sem esperanças na vida! Não. São pessoas “bem de vida”, como se diz na linguagem popular. Ou seja, possuem remuneração acima da maioria da população brasileira, desfrutam do acesso a todos os direitos básicos assegurados pela Constituição, e, pasmem, foram agraciados com bolsas de estudos ou outras facilitações de organizações públicas para alcançarem suas “formações educacionais”.

Isso mesmo! Pessoas que fizeram graduação, especialização, mestrado e/ou doutorado por meio dos incentivos e facilitações governamentais. Dessa forma, há funcionários públicos, da área burocrática, que aprimoram a sua formação com bolsas de estudos, ou com o oferecimento de cursos (até mestrados e doutorados) custeados pelos governos. E temos professores que fizeram e fazem seus mestrados e doutorados com bolsas de estudos! Aliás, a bolsa de doutorado oferecida pelo governo federal está em torno de R$ 1.800,00 e a de mestrado R$1.200,00. Há estados que oferecem bolsas superiores a estes valores.

E estas pessoas, muitas que já ganham de R$ 2.000,00 a R$ 5.000,00 ou mais por mês, ganham a bolsa de estudos do governo ou o curso gratuito com diversas facilidades (flexibilização do horário de trabalho, licença de atividades laborais, etc.) para fazer o curso. E consideram, obviamente, pouco! E estas mesmas pessoas, as quais usufruem de todos esses benefícios do governo, tem a ousadia de criticar o bolsa família! Ou seja, a bolsa (de estudos) deles de R$ 1.800,00 ou R$ 1.200,00 é necessária, é justa, é correta. Ainda que muitos não necessitem realmente delas. Mas o bolsa família, que transfere renda nos valores de R$ 40,00, R$ 80,00, R$ 100,00 para famílias pobres e miseráveis (muitas até com crianças passando fome!) é dinheiro jogado fora! É considerado dinheiro para vagabundos!

Ora meus caros colegas privilegiados das academias e outros Brasil afora, então significa que tudo o que o governo proporciona de direitos, de facilidades, de ajuda, e de incentivos para melhorar a vida de vocês é correto, mas o que o governo proporciona aos pobres e miseráveis, é errado? É isso? As suas vidas são mais importantes que as vidas dos pobres, miseráveis e excluídos? As suas conquistas profissionais e pessoais na vida são importantes e as dos outros não? As suas necessidades de comer, morar, vestir são importantes, mas as mesmas necessidades dos miseráveis não são? Os seus sonhos e aspirações são importantes, os dos outros não?

Não lhes passa pela cabeça que até estes pobres e miseráveis que necessitam do bolsa família, quando compram um quilo de feijão, arroz, trigo, estão pagando impostos e financiando a tua bolsa de R$ 1.800,00 ou R$ 1.200,00? Estão financiando a sua faculdade particular paga pelo governo? Estão financiando o seu curso em universidades públicas e gratuitas? Estão financiando todos e quaisquer auxílios que o governo lhes oferece? E mais, será que é “bonito” e “legal” depender do governo federal para sobreviver? Com certeza não! Tenhamos a certeza de que isso é humilhante! Acredite! Ninguém gosta de ser identificado oficialmente como “miserável” e ter que sobreviver com a ajuda do bolsa família do governo. Aliás, esta é apenas mais uma humilhação na vida desses pobres e miseráveis, tão violentados por sua triste condição de vida.

E alguns ainda poderiam dizer: “Ah, mas o sol nasce para todos! As oportunidades são para todos! Só não cresce e não melhora de vida quem não quer!”. Ledo engano! E deixemos o sol de lado, pois se trata meramente de retórica! O sistema capitalista beneficia aqueles que possuem o capital, ou seja, aqueles que têm mais posses e mais dinheiro. Estes terão, logicamente, mais e melhores condições de usufruir das tais “oportunidades”. Assim, é evidente que muitas das “oportunidades” serão usufruídas apenas por aqueles que tem os recursos e as condições para chegar até elas. É uma ilusão afirmar que as “oportunidades” são para todos. Não são! Enfaticamente não são! Mas o discurso capitalista é esse, afinal, as pessoas precisam dessa ilusão para se manterem dóceis, trabalhadoras e ordeiras, todas buscando o seu “lugar ao sol”, mesmo que esse sol ilumine mais alguns, do que outros.

A verdade é que, em muitas situações, temos apenas a “oportunidade” de competir. E então aqueles que tiveram as melhores condições (que o capital/dinheiro pode proporcionar) de se preparar para essa competição, terão, obviamente, as melhores chances de vencer a competição. E a ilusão de que “o sol nasce para todos” é reforçada pela simples possibilidade da competição! E o competidor fracassado ainda se condena porque não se preparou suficientemente para a competição! Sim, a crueldade sutil do sistema capitalista faz a vítima culpar a si próprio por não ter conseguido alcançar as “oportunidades”, haja vista que estas “são para todos”. Logo, “se eu não consigo acessar a oportunidade, o problema sou eu, não o sistema”. Mundo cruel, não é mesmo? Neste sentido, escrevi algo sobre “A importância de políticas públicas de geração e distribuição de renda”.

Mas não nos assustemos! Não são todos que possuem sensibilidade social. Alguns, aliás, nunca terão. Para muitos, que sempre tem e tiveram acesso aos seus direitos na sociedade, não é fácil entenderem a problemática dos pobres e miseráveis, principalmente quando não tem interesse nenhum em entendê-los! Atacá-los, condená-los, e discriminá-los é mais simples e menos trabalhoso. Repetir como um papagaio os argumentos simplistas de um “almofadinha” metido a profissional da mídia, que sempre teve tudo na vida, é mais fácil.

No entanto, sejamos francos, entender um pouco das complexidades da sociedade dá trabalho! São muitas leituras, muitas discussões, muitas trocas de conhecimento e é necessária muita empatia com os pobres, miseráveis e excluídos. E muitas pessoas não se dão a todo esse trabalho! E então, quem são realmente os vagabundos nessa história? Quem são realmente os pobres e miseráveis? Quem são realmente os analfabetos? Há uma expressão popular que diz: “São tão pobres, mas tão pobres, que só tem dinheiro!”. E para finalizar, neste contexto de bolsas e de ajuda do governo (que alguns julgam que só as suas bolsas e ajudas do governo são justas!), não seria interessante criar uma “bolsa desalienação” para essa gente que não tem sensibilidade social?

PDF: A ajuda ou bolsa do governo que recebo é justa, o bolsa família não: uma crítica à hipocrisia de alguns

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14 Comentários leave one →
  1. EDINHO MARTINS permalink
    04/09/2012 13:01

    Verdadeiramente um excelente texto e digno de muita reflexão.

  2. Yara permalink
    04/09/2012 14:58

    Falou tudo….é muito mais fácil olhar apenas para si mesmo e criticar a “ajuda” aos outros..sensibilização para entender a sociedade como um todo, não apenas a sociedade da sua própria vida, parabéns pela reportagem Geverson.

  3. 04/10/2012 13:35

    Esse egoísmo de classe nao é patrimônio de brasileiros, na Argentina as ajudas para familias e criancas pobres sao chamadas pela classe media de bolsas descansar, ignorando o passado recente: 2001, a maior crise economica do pais!

    • 04/10/2012 17:17

      Sim, Ester, isso realmente é um problema de parte das elites em todo o mundo. O preconceito de classe parece ser universal. Talvez a discussão sobre isso com as pessoas e especialmente com os mais jovens, possa reduzir o preconceito. Obrigado pela sua participação! :D

  4. Priscila permalink
    05/10/2012 10:54

    Me desculpe, eu não sou a favor de certas bolsas mas não pelos motivos descritos… certamente eu nunca passei pela maior miséria de todas mas passei por situações problematicas e meus pais passaram por coisa muito pior e que deram muita perspectiva para minha familia. Concordo em parte com seus argumentos, mas primeiro bolsa de estudo não pode ser comparada com bolsa familia. Eu apoio ajudar sim quem precisa, e considero a bolsa familia como um “tapa-buraco” para um problema muito maior. O grande “porém” dessa ajuda é que não há restrição de tempo, mesmo que esse seja um primeiro passo para algo futuro o governo deixa esse passo na possibilidade de ser eterno e o que se pode fazer contra isso?? também gera uma certa dependencia desse grupo social, que não necessariamente evolui para fora disso, e irão viver em constante medo do mes em que a ajuda não virá, digo isso pensando exatamente no futuro da classe “pobre”, é certo uma familia viver eternamente de bolsa familia??? Não há nenhuma obrigação ou plano para profissionalização ou outro tipo de preparo para esses individuos passarem a mais do que são, e essa é a lastima desse projeto…
    Bolsas de estudos são por si temporarias, pois se trata de cursos e especializações, e funcionam mais como um investimento pois essa pessoa que recebeu a bolsa vai estar mais capacitada para produzir e contribuir melhor com o país, isso nem sempre funciona, mas ocorre na maioria das vezes. Se a bolsa familia tivesse mais dessas caracteristicas seria com toda certeza melhor recebida.

  5. Altair Angelo dos Santos permalink
    28/04/2013 23:24

    O Bolsa Família, programa de distribuição de renda, possui algumas regras, tem que ter filhos estudando, carteira de vacinação em dia, renda per capta da família baixa, enfim, tem a contrapartida da família beneficiada. Ao meu ver ajuda e muito os que dela necessitam, afinal, o sistema economico em vigor em nosso país, há mais de séculos, não dá oportunidade iguais para todos (Capitalismo Perverso, Lei do mais forte…). Por outro lado, a economia da periferia das cidades barasileiras estão cada vez mais aquecidas por causa do Bolsa Família, o beneficiado gasta na propria comunidade.
    Parabéns professor, pela brilhante explanação.

  6. Daniele permalink
    07/12/2013 14:18

    Adorei o texto!!!! simplesmente genial…
    Parabéns professor Geverson não o conheço mais já fiquei sua fã.

  7. JOAO BATISTA permalink
    24/05/2014 19:49

    Belo discurso, mas na verdade quem paga toda a conta é o trabalhador brasileiro, é o micro empresário (que, de empresario não tem nada), é a pequena empresa. É do produto gerado por esses guerreiros que os governos, se locupletam e fazem demagogia barata. Sim, demagogia, porque usam o dinheiro pra perpetuar a pobreza e a dependencia do povo ignorante. Ou Vcs acham que a infinidade de ajudas dadas pelos governos vão resolver algum problema??? vão tirar o pobre da pobreza?? vão melhorar a saude?? vão melhorar a moradia?? etc… claro que não!! Essas ajudas são dão votos aos corruptos e mantem no poder, esses canalhas!! E o povo, na sua santa ignorancia, acha que o governo esta pensando no Povo???? hehehe ledo engano hehehe

  8. Maria Isabel Pereira permalink
    28/10/2014 13:28

    Eu só acho que deveria ter uma fiscalização mais rigorosa. Porque? O que a gente ouve por aí e que alguns “miseráveis” conseguem burlar as condições para obter a bolsa. Muitas vezes no perfil dessas famílias há drogados, alcoólatras. Sou sim a favor da “bolsa família” para aqueles que realmente são pobres e muitas vezes nem tem condições de tentar “pescar o peixe”. E até nessa condição de ajudar o pobre, alguns políticos corruptos se beneficiam desse direito.
    Até o Pronatec já esta nos noticiários por não ter fiscalização eficiente.
    Espero que nossa presidente fiscalize melhor esses benefícios.

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