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O desprezível voto útil

20/08/2012

 Publicado no jornal Diário de Guarapuava, 18-19/08/12, ano XIII, ed. 3417, p. A20.

É comum, em período eleitoral, ver e ouvir pessoas dizendo que usarão o famoso e conhecido “voto útil”, ou seja, o processo de votar num candidato porque ele aparenta ter maiores chances de vencer as eleições. Assim, pensam estar fazendo a coisa certa, pois não estariam “desperdiçando” o voto, o que aconteceria se tivessem votado em candidatos que não vencessem as eleições. De maneira geral, são as pesquisas eleitorais que balizam esse tipo de decisão do eleitor, haja vista que, inevitavelmente, algum candidato estará à frente nos resultados dessas pesquisas. Não é à toa que os políticos ficam de olho em pesquisas eleitorais. Alguns chegam a censurá-las, por meio da justiça, quando podem. Sabem muito bem o poder de indução de votos que resultados positivos em pesquisas têm em parte da população, em geral, aquela parte que é desprovida de capacidade crítica.

Na realidade, a cada eleição, tal fenômeno – o voto útil – é constatado nas decisões de parte dos eleitores. Mas a sua existência quase certa não significa que devamos considerá-lo correto, válido ou virtuoso. Pelo contrário, é importante ressaltar que esse tipo de voto não tem absolutamente nada de racional. É um voto totalmente burro, totalmente irracional, totalmente desprovido de inteligência!

Entretanto, é claro que alguns grupos políticos, os quais podem vir a se beneficiar dessa situação, acabam até mesmo promovendo-o. Falam do voto útil como se fosse algo correto e um comportamento adequado ao eleitor. Chegam ao absurdo de até estimulá-lo, especialmente com os eleitores menos aptos a fazer análises críticas em política. Tudo por interesse. Neste caso, usam os mais perspicazes artifícios linguísticos em seus discursos, muitas vezes travestidos de supostas análises “intelectuais” sobre a conjuntura política, na tentativa de induzir os eleitores desavisados ao reprovável voto útil.

Não há razão nenhuma no voto útil. É o verdadeiro voto “Maria vai com as outras”, ou seja, “se os outros fazem algo, eu faço também”. Se os outros estão manifestando-se a favor de determinado candidato, a pessoa tende a seguir o mesmo caminho, sem pensar, sem raciocinar, sem usar a sua capacidade de análise, sem usar a sua inteligência, sem exercer o seu papel de protagonista de suas escolhas. Age, enfim, como um ser fraco, dependente, manipulável e totalmente influenciável pelas análises – falíveis – e decisões de outras pessoas.

É certo que vivemos em sociedade. Não vivemos isolados. A coletividade nos influencia, e nós a influenciamos, ainda que de forma ínfima, num processo de dualidade constante. Mas não se pode chegar a esse nível de indiferença com a política, a ponto de praticamente terceirizarmos as nossas escolhas. A ponto de agirmos como meros repetidores daquilo que os outros pensam, dizem, e fazem. A ponto de nos recusarmos a pensar.

Não. Não é esse o tipo de eleitor e eleitora que o Brasil precisa. Não é esse o tipo de eleitor que transformará a sua própria realidade. Não é esse o tipo de eleitor que trará a mudança necessária à tão criticada política vigente. Não é esse o tipo de eleitor que mudará, por meio de seu voto, a educação, a segurança, o transporte, a saúde, e as demais áreas as quais somos todos afetos na sociedade.

O voto útil é um voto covarde, tanto para quem o estimula, quanto para o próprio eleitor. É covardia daqueles grupos políticos que o estimulam porque tratam os eleitores como se fossem seres humanos desprovidos de inteligência e de capacidade crítica, como se fossem objetos que podem ser manipulados num jogo e posicionados ao seu bel prazer, para seus interesses. É covardia do próprio eleitor, porque ao deixar de usar suas capacidades, seus conhecimentos, suas atitudes, sua inteligência no sentido nobre de tentar compreender com mais amplitude o seu papel na sociedade e a importância do seu voto para eleger os melhores políticos, abre mão do poder de fazer a mudança em relação às reclamações e reivindicações enquanto cidadão de uma democracia.

Seria exigir demais esperar que o eleitor seja um individuo que pensa? Que analisa criticamente os candidatos? Que não seja um mero repetidor de escolhas alheias? Que não seja um indivíduo que vive reclamando da política e não usa seu voto para a mudança? Que não vota no candidato porque ele tem mais chances de vencer? Seria utópico demais isso? Acredito que não. O tal do voto útil me parece tão irresponsável, grotesco, desprezível, que ainda prefiro acreditar no voto consciente, pensado, analisado, raciocinado, inteligente! ♦

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