Skip to content

Pesquisas eleitorais nem sempre refletem o resultado das urnas

29/09/2012

 Publicado no jornal Diário de Guarapuava, 29-30/09/12, ano XIII, ed. 3446, p. A18.

As pesquisas eleitorais são uma prática comum no Brasil, principalmente em períodos de eleições. Elas são reguladas pela denominada Lei Eleitoral número 9.504/1997. Portanto, há regras legais a serem observadas para a realização dessas pesquisas.

Conforme determina a lei, as entidades e empresas que realizarem pesquisas de opinião pública relativas às eleições ou aos candidatos, para conhecimento público, são obrigadas, para cada pesquisa, a registrar, junto à Justiça Eleitoral, até cinco dias antes da divulgação, as seguintes informações: quem contratou a pesquisa; valor e origem dos recursos despendidos no trabalho; metodologia e período de realização da pesquisa; plano amostral e ponderação quanto a sexo, idade, grau de instrução, nível econômico e área física de realização do trabalho, intervalo de confiança e margem de erro; sistema interno de controle e verificação, conferência e fiscalização da coleta de dados e do trabalho de campo; questionário completo aplicado ou a ser aplicado; o nome de quem pagou pela realização do trabalho.

A exigência de todos estes requisitos tem a intenção óbvia de tornar o processo da pesquisa eleitoral o mais sério e confiável possível. Mas, apesar disso, há inúmeras críticas relacionadas à divulgação de pesquisas eleitorais. Tanto que muitos candidatos tentam evitar a divulgação de pesquisas. Em geral, aqueles que não confiam na credibilidade da pesquisa tendem a questioná-la. E fazem isso, às vezes, judicialmente, evitando, de fato, a sua divulgação.

Há três razões principais que balizam a polêmica em torno da divulgação de pesquisas eleitorais. Uma delas é que tais pesquisas, por mostrarem apenas as preferências de eleitores num momento específico da campanha política, não representam a complexidade e a dinamicidade de todo o processo eleitoral. Mudanças podem ocorrer a qualquer momento por causa de fatos, ou eventos novos, e até mesmo pelo decorrer natural da campanha política, o que pode levar o eleitor a mudar de opinião e de candidato; decidir por algum candidato, no caso de indecisos; ou mesmo, de posse de maior quantidade de informações, tornar-se um eleitor indeciso; ou até ficar propenso a votar nulo ou branco. Portanto, o eleitor pode reavaliar o seu voto a qualquer momento do período eleitoral, inclusive na véspera da eleição, tornando os resultados de pesquisas eleitorais, inócuos.

Outro motivo que alimenta a polêmica sobre a divulgação de pesquisas eleitorais é o fato de que ela pode induzir eleitores, especialmente aqueles com pouco ou nenhum senso crítico, ou aqueles indiferentes ou decepcionados com a política, a votarem em candidatos que possuem os maiores índices de preferência, de acordo com os resultados da pesquisa. Assim, muitos eleitores podem ser influenciados pela pesquisa e optar pelo voto no candidato que aparenta ter maiores chances de vencer a eleição. Ou seja, as pesquisas estimulariam, de forma prejudicial ao processo eleitoral, o chamado “voto útil”, que ocorre quando o eleitor vota num candidato para “não perder o voto”, quando deveria usar a razão e analisar profundamente os candidatos, seus aliados, seu passado e suas propostas, para decidir o voto.

Outra razão importante das contestações da divulgação de pesquisas eleitorais é a desconfiança em torno da seriedade de pesquisas, haja vista que há inúmeros casos registrados, por todo o país, em que os resultados de pesquisas eleitorais não coincidiram com os resultados reais de eleições, apurados nas urnas. Nestes casos, as diferenças entre os números apresentados por pesquisas e os resultados das urnas, são muito grandes. Há casos também em que a diferença nos resultados é grande entre os institutos ou empresas de pesquisas. Tais históricos de erros dão margem para especulações sobre a possível manipulação de resultados de pesquisas eleitorais, com o objetivo pernicioso e ilegal de beneficiar certos candidatos. E não podemos ser ingênuos a ponto de pensar que isso não aconteça ou não possa acontecer.

Diante do exposto, ainda que como eleitores tenhamos a curiosidade sobre a evolução da campanha eleitoral, parece ser mais sensato – para o aprimoramento do processo democrático – a não divulgação de pesquisas eleitorais. Elas serviriam apenas para uso interno de candidatos e partidos. E o eleitor teria maior liberdade para decidir sobre o seu voto. Logo, sem a possível influência de pesquisas eleitorais, talvez o voto fosse mais consciente. ♦

Anúncios
No comments yet

Digite seu comentario

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s