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O culto à desigualdade

02/12/2012

 Publicado no jornal Diário de Guarapuava, 01-02/12/12, ano XIII, ed. 3489, p. A20.

No último domingo, dia 25 de novembro, um dos mais conhecidos jornais da grande imprensa – a Folha de São Paulo – publicou um texto de uma colunista que deixou muitos brasileiros estarrecidos. Dentre eles, eu. Foi muito difícil ler o texto até o final. E foi repugnante perceber o quanto existem pessoas que lamentam o fato de nosso país estar se tornando mais igualitário, e, portanto, mais justo com seu povo.

Reconheço que temos muito, mas muito mesmo, a conquistar nesse tema. Porém, os avanços na melhoria da qualidade de vida geral e de acesso às oportunidades aos brasileiros são inegáveis, especialmente com a entrada de Lula (PT) na presidência da república, a partir do ano de 2003. Talvez os mais jovens não se lembrem de como era sofrida a vida até a gestão de FHC (PSDB). É necessário informar-se sobre o passado para valorizar o presente.

Mas retornemos ao conteúdo do texto da colunista. De acordo com ela, ser rico no Brasil, perdeu a graça! E perdeu a graça porque há maior dificuldade dos ricos se destacarem dos demais brasileiros. É como se os ricos tivessem perdido a sua identidade e a sua forma de mostrar ao mundo que são diferentes, que são exclusivos e que podem ter coisas exclusivas, que são superiores! Ou seja, perdeu a graça porque antes as fronteiras entre ricos e pobres eram muito bem definidas. Hoje, não mais.

De fato, antes, era uma dificuldade enorme para uma família comprar uma casa. Hoje, com o aumento real na renda dos brasileiros e as possibilidades de financiamento habitacional, o sonho da casa própria torna-se realidade com muito mais facilidade. Antes, a possibilidade de um jovem em início de carreira profissional comprar uma moto ou um carro, era quase nula, salvo, obviamente, para os oriundos de famílias “bem de vida”. Hoje, é possível adquirir tais veículos por meio de prestações acessíveis. A universidade também era um sonho distante para muitos jovens. Hoje, as oportunidades são muito maiores.

Outros exemplos de produtos e serviços que diferenciavam os ricos de pobres eram os eletrônicos e outros produtos com tecnologia inovadora; além de viagens para lugares e países exclusivos, que só os endinheirados podiam fazer. A alimentação farta e diversa também era um diferencial dos ricos em relação aos pobres, haja vista que o que os pobres, na sua maioria, comiam mesmo era feijão com arroz, sem direito à “mistura”. Leite e carne tinham só no final de semana, na maioria das famílias pobres. Sucos de frutas e as próprias frutas, pobres só tinham acesso se as cultivassem no quintal, ou se comprassem, de vez em quando, as frutas mais baratas, como banana e laranja.

Enfim, outros aspectos poderiam ser citados para enfatizar como era a vida de milhões de brasileiros num passado muito recente. E é evidente que estas comparações generalizadas, simplistas e falíveis, podem ser questionadas. Mas, ainda assim, representam muito da realidade do passado recente de muitos brasileiros e brasileiras. E representam, ainda, a realidade atual para milhões de pobres e miseráveis.

Registre-se que o Brasil avançou muito nos últimos anos na redução da pobreza e da miséria. De acordo com o ex-presidente Lula, baseado em estudos, 28 milhões de pessoas deixaram a pobreza e quase 40 milhões de brasileiros ascenderam à classe média de 2003 a 2010. Pesquisas mostram que a pobreza continua diminuindo no governo Dilma. Mas tais avanços não são vistos com bons olhos por parte da elite brasileira, a qual sempre se regozijou com a desigualdade social. A colunista da Folha de São Paulo teceu lamentações que mostram como parte dessa elite se sente em relação às transformações sociais recentes no Brasil.

De acordo com ela, possuir carros e outros bens de alto valor, como casas e apartamentos, viajar para o exterior, ter produtos eletrônicos recém-lançados, usufruir de certos serviços, enfim, ter e usufruir de tudo o que tornava os ricos exclusivos e diferentes, teria perdido a graça, justamente porque a maioria dos brasileiros também pode ter e usufruir de tais coisas. Para ela, “O problema é: como se diferenciar do resto da humanidade, se todos têm acesso a absolutamente tudo, pagando módicas prestações mensais?”.

É fato. Parte da elite não se conforma em ver o povo tendo acesso a bens e serviços que, antes, eram exclusividade dos ricos. E assim caminha a humanidade. Uns lutam por igualdade, melhoria da qualidade de vida e inclusão social. Outros lamentam a igualdade e as conquistas sociais, porque é na desigualdade e na exclusão social que se sentem bem. ♦

Pobreza pensamento dos ricos

Pobreza esconder

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Abaixo, a reprodução do texto da colunista do jornal Folha de São Paulo, de 25/11/12:

“DANUZA LEÃO

Ser especial

Ir a Nova York já teve sua graça, mas, agora, o porteiro do prédio também pode ir, então qual a graça?

AFINAL, QUAL a graça de ter muito dinheiro? Quanto mais coisas se tem, mais se quer ter e os desejos e anseios vão mudando -e aumentando- a cada dia, só que a coisa não é assim tão simples. Bom mesmo é possuir coisas exclusivas, a que só nós temos acesso; se todo mundo fosse rico, a vida seria um tédio.

Um homem que começa do nada, por exemplo: no início de sua vida, ter um apartamento era uma ambição quase impossível de alcançar; mas, agora, cheio de sucesso, se você falar que está pensando em comprar um com menos de 800 metros quadrados, piscina, sauna e churrasqueira, ele vai olhar para você com o maior desprezo -isso se olhar.

Vai longe o tempo do primeiro fusquinha comprado com o maior sacrifício; agora, se não for um importado, com televisão, bar e computador, não interessa -e só tem graça se for o único a ter o brinquedinho. Somos todos verdadeiras crianças, e só queremos ser únicos, especiais e raros; simples, não?

Queremos todas as brincadeirinhas eletrônicas, que acabaram de ser lançadas, mas qual a graça, se até o vizinho tiver as mesmas? O problema é: como se diferenciar do resto da humanidade, se todos têm acesso a absolutamente tudo, pagando módicas prestações mensais?

As viagens, por exemplo: já se foi o tempo em que ir a Paris era só para alguns; hoje, ninguém quer ouvir o relato da subida do Nilo, do passeio de balão pelo deserto ou ver as fotos da viagem -e se for o vídeo, pior ainda- de quem foi às muralhas da China. Ir a Nova York ver os musicais da Broadway já teve sua graça, mas, por R$ 50 mensais, o porteiro do prédio também pode ir, então qual a graça? Enfrentar 12 horas de avião para chegar a Paris, entrar nas perfumarias que dão 40% de desconto, com vendedoras falando português e onde você só encontra brasileiros -não é melhor ficar por aqui mesmo?

Viajar ficou banal e a pergunta é: o que se pode fazer de diferente, original, para deslumbrar os amigos e mostrar que se é um ser raro, com imaginação e criatividade, diferente do resto da humanidade?

Até outro dia causava um certo frisson ter um jatinho para viagens mais longas e um helicóptero para chegar a Petrópolis ou Angra sem passar pelo desconforto dos congestionamentos. Mas hoje esses pequenos objetos de desejo ficaram tão banais que só podem deslumbrar uma menina modesta que ainda não passou dos 18. A não ser, talvez, que o interior do jatinho seja feito de couro de cobra -talvez.

É claro que ficar rico deve ser muito bom, mas algumas coisas os ricos perdem quando chegam lá. Maracanã nunca mais, Carnaval também não, e ver os fogos do dia 31 na praia de Copacabana, nem pensar. Se todos têm acesso a esses prazeres, eles passam a não ter mais graça.

Seguindo esse raciocínio, subir o Champs Elysées numa linda tarde de primavera, junto a milhares de turistas tendo as mesmas visões de beleza, é de uma banalidade insuportável. Não importa estar no lugar mais bonito do mundo; o que interessa é saber que só poucos, como você, podem desfrutar do mesmo encantamento.

Quando se chega a esse ponto, a vida fica difícil. Ir para o Caribe não dá, porque as praias estão infestadas de turistas -assim como Nova York, Londres e Paris; e como no Nordeste só tem alemães e japoneses, chega-se à conclusão de que o mundo está ficando pequeno.

Para os muito exigentes, passa a existir uma única solução: trancar-se em casa com um livro, uma enorme caixa de chocolates -sem medo de engordar-, o ar-condicionado ligado, a televisão desligada, e sozinha.

E quer saber? Se o livro for mesmo bom, não tem nada melhor na vida.

Quase nada, digamos.”

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