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A periferia pede socorro

06/01/2013

 Publicado no jornal Diário de Guarapuava, 05-06/01/13, ano XIV, ed. 3511, p. A19.

Começa o verão e começam as notícias sobre as enchentes nas cidades. E na quase totalidade dos casos, as enchentes afetam os bairros periféricos, e não o centro das cidades. Independentemente dos motivos e das causas das enchentes, o fato é que a periferia, onde a maior parte da população mora, é sempre a mais prejudicada pela maioria dos problemas da vida urbana. A realidade mostra que a periferia, caracterizada por bairros mais afastados do centro da cidade, e, em geral, mais pobres e com mais problemas sociais, tende a ter atendimento precário pelo poder público. E o pior, em quase todas as áreas.

Por que, de maneira geral, as enchentes ocorrem nos bairros da periferia da cidade? Por que os postos de saúde mais desprovidos de recursos estão na periferia? Por que os grandes problemas sociais, como a violência, acontecem em bairros mais retirados? Por que a segurança pública é bastante ausente na periferia? Por que as escolas das vilas, em diversos casos, são as mais precárias? Por que as ruas da periferia são as mais mal cuidadas? Por que faltam mais água e energia elétrica na periferia? Por que o saneamento básico ainda é precário ou inexistente em parte da periferia? E inúmeros outros “porquês” poderiam ser feitos.

Aqueles que já moraram na região central e na periferia percebem muito bem essa diferença. A qualidade de vida do centro da cidade, de maneira geral, é bastante melhor que a dos bairros distantes. É como se as cidades possuíssem dois mundos: um melhor que o outro. O problema disso é que poucos estão vivendo nesse mundo melhor. A maioria da população vive no outro mundo, o das periferias, tão abandonadas pelo poder público. É doloroso ter que admitir que a imagem da pobreza, do descaso, e da vida difícil dos mais pobres, parece fazer parte da paisagem das cidades. Algo “normal”.

É claro que há razões para que o centro da cidade possua boas condições estruturais, pois é ali que há o maior fluxo diário de pessoas, por causa da concentração do comércio, demais empresas, organizações públicas, oferecimento de serviços etc. Mas a diferença dessas condições estruturais em relação à periferia não pode ser tão grande. A população dos bairros e vilas não pode ser massacrada pela falta de condições de vida adequadas para que a elite central viva no paraíso.

É necessário que o poder público tenha um olhar especial sobre as camadas mais pobres da sociedade, sobre as pessoas que residem em bairros, vilas, e distritos distantes. São os mais pobres e excluídos que necessitam mais do Estado. São os mais pobres que dependem de serviços básicos do poder público, ainda que seja um direito de toda a população, independentemente da condição social, ter acesso a tais serviços públicos. Há aqueles, porém, em situação de maior vulnerabilidade social.

direitos iguais2O fato é que a periferia da cidade não pode ser negligenciada. Não se pode mais permitir que exista um tratamento tão diferenciado do poder público entre a área central e a periferia. A segurança pública, por meio das polícias, deve atuar constantemente na periferia, tratando os moradores dos bairros com o respeito que merecem. A saúde de qualidade deve ser acessível às pessoas nos bairros. As escolas públicas da periferia devem ter o mesmo padrão de qualidade que as escolas públicas centrais e de bairros elitizados. As ruas de toda a cidade devem ser bem cuidadas, não apenas as do centro. Enfim, o respeito à dignidade de cidadãos e cidadãs, que moram em quaisquer lugares da cidade – centro ou periferia – deve ser uma prática permanente do poder público.

E se essa prática não ocorre, ou não ocorrer, e a periferia for abandonada pelo poder público, a comunidade, por meio de organização popular, deve intervir no processo político local. O poder da periferia é grande, mas parece estar adormecido. Afinal, é na periferia que está a maior parte dos votos que elegem os prefeitos, os vereadores e demais políticos. É necessário desenvolver nas comunidades a capacidade de análise crítica da população local sobre a sua realidade e entender o seu poder de mobilização para a mudança. Há uma enorme inteligência coletiva, com alto potencial de transformação, na periferia. Talvez falte apenas a organização popular para que a indignação se transforme em ações que gerem a mudança na realidade das periferias da cidade. ♦

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